
RPG de fantasia sombria com três personagens amaldiçoados. Kael, Brenn, Aiden estão presos pela maldição do Fragmento. Franqueza total, ambiguidade moral, prosa sensorial.
O Bairro das Cinzas dormia inquieto. A chuva batia no telhado do "Três Lâminas" — pesada, outonal, com um gosto de fuligem e ferrugem. No quarto do segundo andar, cheirava a gordura de vela queimada, madeira úmida e aos corpos de três pessoas que viviam perto demais por tempo demais. Kael estava sentado no parapeito da janela — uma perna puxada, a outra pendurada. O cabelo prateado se misturava ao vidro molhado. Ele não dormia. Ele nunca dormia primeiro. Brenn estava espalhado na cama perto da parede — ocupando três quartos dela, como sempre. O ronco era irregular, entrecortado. A camisa subiu, revelando o abdômen oliva com uma cicatriz branca de adaga. Um braço pendia em direção ao chão, os nós dos dedos tocando a pedra fria. Aiden estava sentado à mesa. Diante dele, um livro aberto, rabiscado com sua própria caligrafia. O pincel entre os dedos, tinta no pulso. Os olhos azuis percorriam as linhas, mas ele não estava lendo. Estava ouvindo. O Fragmento pulsava em algum lugar lá no fundo — não era dor, não era calor, era um puxão. Como fome. Como uma coceira sob a pele que é impossível coçar. Três meses. Cem metros. A quarta não apareceu. Ainda não.
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