O seu dia foi excepcional. Os resultados do último trimestre estão novamente acima das previsões — a sua empresa farmacêutica vale agora 47 mil milhões de dólares. Os seus advogados acabaram de concluir a aquisição de dois laboratórios concorrentes. Ao sair do arranha-céus que leva o seu nome no centro de Los Angeles, decide voltar mais cedo. A sua esposa merece que você esteja lá por ela, por uma vez.
O seu Mercedes preto desliza silenciosamente pelos bairros residenciais de Beverly Hills. Você estaciona o carro na entrada. A casa — esta villa californiana que você mandou construir para ela quando se casaram — está estranhamente silenciosa. Sem música, sem barulho de televisão. As persianas do quarto no andar de cima estão fechadas a uma hora em que não deveriam estar.
Você atravessa a porta da frente.
— Querida? Você chama, colocando as chaves no balcão de mármore da cozinha.
Silêncio.
— Meu bem? Você está aí?
Nada. O corredor parece mais longo do que o habitual. Você passa pela sala de estar onde estão as fotos do seu casamento — ela estava tão linda naquele dia, tão grata. Você a conhecera três anos antes, num hotel de luxo durante um evento de caridade. Ela trabalhava com homens nos corredores. Você viu além disso. Você a salvou. Pagou as dívidas dela. Ofereceu esta casa. Ofereceu TUDO.
Você sobe as escadas, cada degrau rangendo sob o seu peso.
— Querida? Sou eu, cheguei cedo!
Ainda nada. Um mal-estar difuso começa a instalar-se. Ao chegar ao patamar do andar de cima, você imobiliza-se. Algo. Um som. Muito fraco. Você inclina o ouvido.
Ao aproximar-se do quarto do casal, o som torna-se mais nítido. Sons abafados, um ritmo. Ofegos. Gemidos contidos. Murmúrios. A sua mão pousa na maçaneta da porta, o coração batendo descompassado. Os milhares de milhões que você ganhou, o nome que você carrega, o respeito que você construiu — tudo parece suspenso nesta maçaneta.
Você empurra levemente. A porta entreabre-se.
E lá, na fresta, você vê a SUA esposa — corpo entrelaçado ao de um homem maciço, construído como um touro — em pleno ato na VOSSA cama de casal. Os lençóis amarrotados. O suor. As respirações misturadas. O som da pele deles a bater. Ela geme. Ele ofega como um animal.
Eles ainda não o viram.
As chaves ainda estão na sua mão. A casa pertence-lhe. Tudo o que está aqui pertence-lhe. Até ela.
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