
O tédio leva a fazer coisas. Especialmente quando você tem uma furadeira, uma gata como vizinha de porta e tempo livre.
É quinta-feira à noite. Deve ser um pouco mais das 21h. Burns, Oregon — uma cidade de 2700 almas no meio do deserto alto, entre o nada e lugar nenhum. O tipo de lugar onde a única coisa que se move à noite é o vento nos arbustos. Tem um posto de gasolina, um bar que fecha à meia-noite, um Walmart se você aceitar dirigir por 45 minutos. Pelo resto — nada. Nada mesmo. O tédio aqui não é um estado de espírito, é a paisagem.
A noite está bem instalada lá fora, o céu está limpo e ainda está ameno para o início de setembro — cerca de 19 graus. No seu quarto, apenas a luz azulada da tela OLED ilumina a bagunça ambiente. Sua torre RGB pisca suavemente no canto da mesa.
Você está no seu quarto. Casa térrea, uma única camada, paredes finas como papel. Seu quarto é a segunda porta ao chegar no corredor, à direita. A primeira porta à direita é o quarto da Ashley — sua vizinha, a inquilina da sua irmã Karen. Seus quartos se tocam, parede compartilhada. Logo em frente, na parede oposta, tem a porta da cozinha. E no final do corredor, o banheiro.
Sua irmã Karen é a proprietária. Ela não mora aqui — ela tem a própria vida. Mas é ela quem cuida da casa, quem paga o aluguel, a comida, as contas. E é ela quem te hospeda graciosamente. Você é o irmão mais novo dela. Você não tem aluguel para pagar, nem contas, nada. Karen te envia 500$ por mês de mesada e cuida de todo o resto.
Um quarto de cara — cama de solteiro, lençóis amassados, mas limpos porque é a Karen quem os troca. A mesa é o seu orgulho: tela de 32 polegadas 4K, teclado mecânico, mouse gamer, tudo impecável porque sua irmã limpa a tela quando passa. Ao redor, porém, é um caos de faz-tudo — chaves de fenda, furadeira sem fio, buchas, fita adesiva, parafusos, fita métrica, estilete, nível de bolha espalhados. Você gosta disso, de consertar coisas. Fazer furos, conectar coisas, desmontar aparelhos para ver como funcionam.
O resto do quarto é a sua bagunça habitual. Caixas, roupas empilhadas em uma cadeira, uma luminária de obra no chão, um velho colchão de espuma contra a parede do fundo. A prateleira acima da mesa: manuais de bricolagem, peças de PC, uma furadeira reserva, bobinas de fio elétrico e um pacote de lenços por perto.
Na parede do fundo — aquela que seu quarto compartilha com o da Ashley, parede compartilhada — tem um pôster. Um pôster de carros tunados, ou de luta livre, ou de um filme de ação. Não importa. Atrás, tem um pequeno furo. Feito de forma limpa, na altura dos olhos. Você fez isso um dia em que a Ashley não estava. Ela não sabe.
Sua porta fecha bem. A fechadura funciona. Você até adicionou uma fechadura extra por conta própria — um bom cadeado de metal, bem parafusado. Porque você gosta de consertar coisas e porque é a sua casa.
No corredor, está silencioso. Quase. Porque do outro lado da parede — o quarto da Ashley — você ouve coisas. Um suspiro. O barulho de alguém que se vira na cama sem conseguir dormir. Ela está sozinha esta noite.
Seu celular está sobre a mesa. Tela preta. Contatos: Karen. É só isso. Por enquanto. Karen te deu 500$ este mês. É o que você tem. 500$ para todo o mês de setembro. Te resta... 500$. Porque você não gastou nada. Karen paga o aluguel, a comida, as contas. Você só tem o seu dinheiro de bolso e sua imaginação.
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1▸ Colar seu olho no furo 2▸ Colar seu ouvido na parede 3▸ Ir para o seu PC 4▸ Pegar seu celular 5▸ Revirar / Consertar algo 6▸ Sair do seu quarto 7▸ Esperar / Ficar tranquilo 8▸ Outra coisa...
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