Sábado, 14 de junho de 2025, 07:47, Garagem — Mansão Xavier
O carburador era uma vadia teimosa. Fazia três dias que ele tentava convencê-lo — desmontando, limpando os jatos com uma escova de aço que soltava limalhas de cobre no chão de concreto, montando tudo de novo apenas para ouvir aquela mesma tosse quando ele dava a partida no motor. Como algo com uma bola de pelo entalada lá no fundo.
O café estava na bancada em uma caneca lascada com o brasão do Instituto meio apagado. Frio. Estava frio há... ele olhou para a janela. Vinte minutos? Quarenta? A luz tinha mudado, era só o que ele sabia. O início do verão pressionando contra o vidro, o tipo de calor que deixava o ar da garagem espesso com óleo, borracha velha e o cheiro particular de concreto que nunca secava totalmente tão fundo no prédio.
Suas mãos se moviam sem pedir permissão ao cérebro. Chave inglesa. Soquete. Pano para limpar a graxa que continuava a se acumular na carcaça. O preto impregnado em cada linha de seus nós dos dedos, sob as unhas onde ficaria até que ele usasse uma escova de aço nelas mais tarde, e mesmo assim não sairia totalmente. A camisa henley tinha três dias de uso, mangas empurradas para além dos cotovelos, e havia uma mancha de algo escuro ao longo de seu antebraço que poderia ser óleo ou talvez da sessão de ontem na Sala de Perigo — ele não tinha verificado.
A mansão respirava ao redor dele. Não metaforicamente. O prédio antigo tinha um pulso — a fornalha ligando e desligando como algo se acomodando para dormir, canos gemendo em algum lugar nas paredes, a vibração fraca de passos nos andares dois níveis acima, onde os outros se moviam em suas manhãs. Uma porta fechando. Água correndo. O prédio se acomodando da maneira que prédios antigos fazem, cheio do peso de todos que viviam dentro dele.
Ele não se importava. Na maioria das manhãs.
O telefone vibrou na bancada ao lado do café frio. Uma vez. Duas vezes. Então parou.
Logan não olhou para ele. A chave girou, um quarto de polegada, e ele sentiu o parafuso encaixar no lugar com uma satisfação que era pequena, física e inteiramente sua. O telefone podia esperar. O que quer que dissesse podia esperar. Algumas manhãs ele precisava de mais cinco minutos sendo ninguém em particular — um homem com um carburador quebrado, café frio e o peso específico de seu próprio corpo em uma cadeira que o conhecia.
Vibrou de novo.
Merda.
Ele largou a chave inglesa. Lento, deliberado, do jeito que fazia tudo quando decidia se iria interagir com o mundo ou não. Limpou as mãos no pano enfiado no bolso de trás — inútil, a graxa era permanente a essa altura — e pegou o telefone.
Charles.
Não era uma mensagem de texto. Uma notificação do sistema interno da mansão, o que significava que Charles o queria no escritório. Não era uma emergência — essas vinham com alarmes e a qualidade particular de silêncio que significava que todos no prédio tinham parado de se mover ao mesmo tempo. Isso era outra coisa. Uma convocação no sentido antigo da palavra. Venha quando puder. Mas venha.
Ele olhou para a Harley. O carburador brilhava com óleo fresco, paciente como um cachorro esperando para passear.
"Tudo bem", ele disse para ninguém. A garagem não respondeu.
Ele se levantou do banco — os joelhos protestando, as costas rígidas de tanto se curvar sobre o motor, a queixa particular de um corpo que curava tudo, exceto o desgaste das décadas — e foi em direção à porta. Os corredores da mansão estariam frescos àquela hora da manhã, a pedra retendo o ar condicionado de ontem como uma caverna retém água. Ele andaria devagar porque sempre andava devagar quando Charles chamava, porque urgência era um presente e Logan não distribuía esses de graça.
A porta da garagem dava para o corredor da ala leste. Em algum lugar acima dele, um chuveiro foi desligado. Passos — mais pesados que os de um residente, provavelmente Piotr se movendo em sua manhã com aquele silêncio particular que um homem daquele tamanho aprendeu cedo.
O escritório do professor ficava no segundo andar. Logan subiu as escadas.
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